Por Leonardo Trielli
Está em pauta no senado um projeto que irá prejudicar os estudantes brasileiros, retirando o direito de pagar meia-entrada nos finais de semana (leia reportagem aqui). Há de se pensar: “mais uma vez, a política beneficiando o empresariado em detrimento da população, principalmente a parcela que mais necessita de incentivo: os estudantes.” Este caminho fácil de pensamento é limitado demais, por não se ater à principal questão, que vai além dos direitos dos estudantes. Este projeto de lei, meus caros, é muito mais um efeito colateral da complacência do brasileiro com a corrupção do que uma simples discussão corriqueira sobre direitos.
Pessoalmente, sempre fui tachado como moralista – outros preferiam me chamar de “trouxa” -, por não ter uma carteirinha de estudante falsificada. Nunca a fiz por uma questão de princípio: falsificar um documento é crime. Além do mais, sempre pensei que este tipo de “jeitinho” acabava virando-se contra quem o pratica. E a discussão no senado, como eu já disse, é um efeito colateral deste jeitinho. Cada vez que o número de carteirinhas falsificadas cresce, o valor de ingressos inflaciona. É o falso-estudante pensando enganar os produtores culturais, e os produtores fingindo serem enganados pelos espertinhos. O ingresso inteiro que antes custava 10 reais no cinema, hoje chega a custar 18 reais. Quem perdeu? O estudante que pagava 5,00 e agora paga 9,00. E o falso-estudante, que pagava 10,00 agora paga… 9,00!
Concordo que o projeto é um erro e absurdo. Primeiro, do ponto de vista prático: o estudante deverá escolher, então, entre ir estudar ou ir ao teatro, já nos dias em que não há aula ele não pode usufruir do direito à meia-entrada. Segundo, porque não acredito que quem garantirá a queda nos preços será o “velho e bom mercado”, como chegou a afirmar o diretor da Abeart (Associação Brasileira de Empresários Artísticos) Ricardo Chantilly, em reportagem no portal UOL. Para ele, o público não iria num show da Ivete Sangalo a 300 reais. Será? Afinal de contas, esse público foi quem, na prática, inflacionou os valores da cultura. E isto ainda implica num terceiro erro: a cultura da impunidade. O texto do projeto penaliza os estudantes que não fizeram nada de errado e mantém impunes os partidários da esperteza, a corrupção rastaqüera, o “todo mundo faz, porque eu não faço?”
Agora eu pergunto: quem mesmo era o trouxa nessa história?
Leonardo Trielli, 26 voltou a ser estudante de jornalismo e a usufruir, mesmo que raramente, dos benefícios de se pagar meia entrada desde o 2o semestre de 2008.
*Este texto é uma opinião pessoal e pode não refletir necessariamente o ponto de vista do Projeto Frutos do Brasil.

